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ALGUNS SALMOS DE SÃO PAULO...

© Ralf Rickli, 1981, 1998

>"é perigoso"
>"o do supermercado" (das possíveis lamentações...)
>"junto às margens do pinheiros" (super flumina)

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     (É PERIGOSO...)

SP 93 - Ponte Transamérica,
saindo da Favela Monte Azul

é perigoso, meu pai
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso.
    a curva e a reta
    o arco e a seta
      e principalmente
o gozo.

é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso!
    o pão, o leite
    o leito, a alta
     mas principalmente
a falta.

 
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DAS POSSÍVEIS LAMENTAÇÕES FUTURAS
DE ALGUM JEREMIAS PRESENTE

Este poema levou o maior prêmio concedido nos concursos
de poesia falada da Revista Escrita, virando notícia na Ilustrada
(Folha de S.Paulo) de 01.12.1981, mesmo dia em que nascia
o primeiro filho do autor... 

chora, ó filha do brooklin,
da paulista, da vieira souto,
chora que não mais tens
quem te console:
caiu a grande casa
que sustentava teus dias

de incontáveis prazeres miúdos,
caiu a morada do xampu
do pão pluma e da margarina,
caiu e não mais verás
suas portas se abrindo.
jamais de novo verás
o pó que lava mais branco
ou a pasta que te assegura o sorriso.
acabou-se o papel macio,
não se acha em saquinhos o chá,
e tomates - tomates, ó filha!,
se os quiseres terás de plantá-los!


caiu, caiu!
caiu a grande casa da abundância
com suas luzes coloridas
e máquinas tilintadoras.
não mais passearás os carrinhos
entre as filas coloridas
ao som de elétrons
cantando por bocas ocultas.
perdeste a chance, ó filha,
de roubares teus grampos de roupa
quando a lente que a todos vigia
se distrai por um segundo;
perdeste a chance
de apreciar tantos livros eróticos
tantos desodorantes
tantas alegrias em lata
e carícias prêt-à-porter;
perdeste a chance
de teres na boca
a fórmula da felicidade
e de levares pra casa a liberdade
vestindo tuas pernas!
perdeste
a chance, minha filha,
pois o supermercado caiu
pra não se levantar mais.


(chora, ó filha, chora
pois como farás agora
pra comprar a vida?)

 
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Junto aos rios de Babilônia 
nos assentávamos e chorávamos 
lembrando de nossa terra. 
Nos salgueiros que ali existem 
pendurávamos nossas harpas. 
Os que nos levaram escravos 
nos pediam canções! 
Os que nos raptaram 
pediam de nós alegria, dizendo:
Cantem! Cantem-nos
algum canto lá de Sião! 
Mas como poderíamos cantar
um canto do nosso Deus 
em uma terra estrangeira? 

"SÚPER FLÚMINA BABYLôNIS"
(Salmo 136/137 - por um poeta hebreu
exilado na cidade de Babilônia,
aprox. 600 a.C.) 

SUPER FLUMINA
(salmo em sampaulilônia)

junto às margens do Pinheiros
onde não se encontra assento
eu caminho de olhos secos:
até a memória nos roubas,
senhora das torres quadradas,
daqueles por quem
nos cabe chorar.

nos jardins que suspendeste
por entre muralhas de espelhos
ando em busca dos salgueiros
– mas já não se anda com harpas,
e onde era mesmo a minha terra
cujas canções não cantar?

futuros, alhures, outroras
em ti não são mais que unicórnios,
pégasos, sereias mudas:
nada existe, em ti, senão tu,
momento infinito,
sem glória, porém,
pois presente és só tu – e nós,
nós cascas de grilos
sugados de aranha,
em tuas teias que vibram
dia e noi-
te, igual.

quisera…
(quisera!)
cantar, como um dia
– em qual
das tuas en-
carnações? –
cantar com um timbre tão forte
que perfurasse teus muros
e acendesse em algum de teus filhos
a lembrança
de duvidar de ti.

libera,
libera minha alma,
ó senhora das torres de vidro,
pra que eu possa de novo
sonhar algum reino de luz

Centro Empresarial de São Paulo, 95–96

 
     
 


Os 3 poemas acima fazem parte de um corpo de poesia com aproximadamente 500 páginas, selecionadas desde 1974, das quais não mais que 100 foram publicadas até 1998.

 
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